Porventura alguém de vocês já ouviu esta frase: "não há vitória quando a luta não é justa"?
É do conhecimento até do mundo mineral que o vestibular é o método mais eficaz para segregar os ricos dos pobres, e que o fato de ser bem sucedido neste não está necessariamente agregado ao sucesso na carreira acadêmica na universidade – vale o jargão “tudo é uma questão de oportunidade”. Por isso, foi inaceitável o comportamento de vocês ao promoverem àquela fatídica manifestação.
Vocês podem estar imaginando que essa medida da Ufes é antidemocrática pois fere o princípio de que todos são iguais perante a lei. De certo, para a lei todos são iguais. Outrossim, e para a sociedade? Ela oferece oportunidades iguais para todos? Ela não segrega os pobres, os negros e todos que a elite julga ser inferior?! A inteligência de cada um nada tem a ver com a renda ou a cor, entretanto as oportunidades sim. Reflitam sobre a parcela desempregada; os jovens sem ensino superior; os penitenciários… Indubitavelmente, a justiça social não é algo que podemos nos orgulhar deste País.
Essa medida visa reduzir essas desigualdades, já que uma universidade pública doravante tem seu Status Quo atingido quando o Estado oferece oportunidades iguais para todos - leia-se educação. É bem verdade que nem todas as escolas privadas são um primor de excelência, e que no interior os alunos ficarão injustiçados - pois a mensalidade não é lá muito alta. Entretanto, ao menos vocês têm muito mais condições que nós, da escola pública. Por isso, por mais que concordem com as cotas não digam que somos incompetentes e aproveitadores.
Gostaria que vocês tivessem a experiência de estudar ao menos um semestre numa escola de ensino médio da rede pública - principalmente aqui do interior. Assim, vocês perceberiam que:
- Não há material didático de qualidade – nisso quando há material didático;
- A maioria dos professores pouco se importam do aluno aprender de fato;
- Os “conteúdos adquiridos” são insuficientes – o que foi apresentado a vocês numa quinzena nos é apresentando sublima/insuficientemente durante todo o bimestre. Dessa forma, ninguém têm o conteúdo necessário pra prestar um bom vestibular;
- Falta incentivo à leitura, não desenvolvendo o senso crítico dos alunos.
- Irregularidade das disciplinas, ociosidade das aulas, falta de infra-estrutura; Ademais outros problemas, por exemplo: falta de perspectivas dos alunos, imobilidade do corpo docente em promover eventos, etc.
Tudo isso se agrava para aqueles que têm de trabalhar e devem estudar à noite, cujo ensino é ainda pior. Sem mencionar os alunos da zona rural que enfrentam um martírio para chegarem à escola.
Enfim, se existe desigualdade, esta se concentra no tipo ensino.
Não discordo ao afirmarem que pagam impostos e que a universidade pública é para todos. É verdade, só que esse conceito de “todos” geralmente agrega em sua devastadora maioria os alunos do ensino privado. E o que dizer do pobre que também paga impostos e que não tem esse benefício da universidade pública por falta de oportunidades? Isso é correto?!
Para citar um cristalino exemplo dessa desigualdade, reparem no curso de Medicina da Ufes: em média 90% das vagas ficam com Leonardo da Vinci, Darwin e Up. Sobram então oitro pra todo o “resto”. Alguém irá dizer que basta estudar com afinco, independentemente do tipo de escola, para alguém conseguir uma aprovação. Logo surge a resposta: como? Por mais que estudamos, essa preparação é irrisória em paralelo com alguém do Leonardo da Vinci, por exemplo. Nem um gênio pode conseguir algo se não tiver oportunidade. Sinceramente, creio que vergonha mesmo é pagar dois mil reais de mensalidade por vários anos e não conseguir essa vaga.
Precebi que havia um cartaz na manifestação com os dizeres “Reforma sim, cotas não!”. De certo, o melhor a fazer seria prover um ensino de qualidade para todos (assim nem vocês precisariam ter que estudar numa escola privada). Mas vale ressaltar que, como tudo nesse País é lento e burocrático, promover uma reestruturação completa no ensino público levaria décadas - em detrimento de muitas gerações de jovens. Acredito que nenhum de nós viverá para ver uma educação igualitária no Brasil.
Apesar de negarem a óbvia desigualdade das escolas, a única razão de seus pais os mantiverem na escola privada é devido à melhor qualidade do ensino. Paradoxalmente, mesmo assim vocês insistem em fingir que todos têm o mesmo potencial. Se isso fosse verdade, bem que vocês poderiam migrar para a rede pública (certamente, poupariam uma considerável quantia a seus pais). Já não basta a mídia, a política e o mercado de trabalho serem hipócritas, vocês estão seguindo a mesma ideologia. Seria egoísmo, medo ou ignorância?
Seria mais sincero, numa outra eventural manifestação, alguém de vocês levar um cartaz gigante com os dizeres “Cotas não, pois eu já não passava no vestibular e agora estou mais temeroso em conseguir” ou um deste “ Egoístas sim, ensino federal à elite!”. Depois disso, os “cocotas” somos nós. Creio que se algum defensor da reserva de vagas insinuasse, numa faixa, que vocês seriam uns “medocas”, choveriam ligações para entrarem com um pedido judicial contra esse infeliz.
Bom, já que felizmente vocês usufruem de bom ensino que a partir de agora passem a valorizar o que possuem, pois chegou a nossa vez de ascendermos socialmente – independentemente de vocês concordarem ou não. Ainda existem 60% das vagas em jogo pra vocês - ainda, pois o ideal seria 50% pra cada.
Reconheçam que a faculdade pública é um bem do povo e não daquela ruidosa massa frustrada da manifestação. Bom seria se esse manifesto tivesse o interesse em aumentar a qualidade do ensino público, aumentar a oferta de vagas da Ufes e até mesmo corroborar para a criação de uma universidade estadual. É interessante, mas a dita elite branca (pois se consideram o farol da modernidade) só provê a união quando se sente ameaçada – como o Cansei, em São Paulo. Manifestações em favor da sociedade, nem pensar né…
Oremos para que esse pensamento narcisista reverta-se, caso contrário, as cotas irão se perdurar na única via de acesso à rede pública de ensino superior para a densa maioria dos estudantes. Parabéns à direção da Ufes. Apesar de ser uma medida tardia, a partir de agora se condicionará um pouco mais de respeito para a sociedade capixaba – ao menos nas oportunidades.